Entrevista – Ivanir dos Santos: “A questão racial é de todos”

 

Ivanir dos Santos é servidor do Arquivo Nacional, doutor em História Comparada pela UFRJ, babalaô e pré-candidato ao Senado. Com seus mais de 40 anos de participação nacional e internacional no movimento negro e contra as intolerâncias racial e religiosa, não tem dúvida ao apontar que o racismo é um problema de todos, da sociedade.

Escamoteado em uma transferência no local de trabalho porque fulano “cria caso” ou explícito nas poucas políticas de estado do Brasil, ele afirma que o único modo de se colocar o Brasil no caminho da justiça para com sua população multiracial é a união das minorias em torno de uma agenda comum, que faça uma mão dupla entre vida social e trabalho contra o racismo.

No campo do trabalho, considera mais que urgente as instituições sindicais colocarem a igualdade racial como item de pauta a ser efetivamente negociado com os patrões. Leia a entrevista abaixo:

 

SINTRASEF – Por que ao entrarmos em uma instituição pública normalmente os servidores menos qualificados são negros e os mais qualificados brancos?

IVANIR DOS SANTOS – Primeiro tem haver também com a falta de oportunidades nas universidades públicas. Inclusive naquelas de carreira que chamam de elite: Medicina, Economia, Direito. Mesmo com as cotas você ainda tem uma resistência destas instituições, criam todas as barreiras possíveis. Outra questão é que por essas carreiras serem muito caras, você não tem um programa de bolsas que sustente os estudantes nesses espaços. Mas para a surpresa nossa, os estudantes que entram têm saído muito bem, expondo a falácia que se dizia sobre não estarem preparados para cursarem estas carreiras.

Se tratando do serviço público, se fosse só a prova escrita era mais fácil para nós; mas quando tem a prova escrita e a entrevista, começa-se um outro tipo de seleção. É o caso com juízes, promotores, diplomatas, mesmo com a política de cotas, e outras carreiras afim. São criadas barreiras e sempre nosso pessoal fica eliminado.

Temos que levar em conta que isso é histórico no Brasil. Só nos últimos dez anos, devido a ação do movimento negro, essa luta pela inclusão está virando política de estado. Porque no fundo só temos duas políticas de Estado, não de governo, que é a Lei 10.639  (obrigatoriedade da matéria História e Cultura Afro-Brasileira no ensino nacional) e a política de cotas, que inclusive pode acabar agora, pois existe uma previsão de avaliação para ela após dez anos de vigência. E mesmo assim há vários mecanismos no aparelho de estado que tentam o não cumprimento dessas leis. Esses mecanismos de exclusão têm a ver com o racismo institucional, como o serviço público, o Estado brasileiro, é pensado nesta forma eugenista de exclusão.

 

Como mudar essa realidade?

O movimento negro tem feito o seu papel. Agora, as pessoas progressistas têm que passar a entender que isso é uma pauta da sociedade brasileira, e não de um grupo dessa sociedade. Muitas vezes esse entendimento não está claro. A questão racial é de todos.

Nós temos dificuldades de entender isso, ainda mais no serviço público. Por exemplo, eu não vi nenhuma pauta do movimento sindical colocando a exigência do cumprimento das cotas no serviço público. Vejo plano de cargos e salários e a melhoria do ambiente de trabalho, mas a democratização do espaço de trabalho, pegando a questão de gênero, que até cresceu um pouco, e a questão racial, eu não vejo. Não se tem isso como uma pauta importante, e nós achamos ela importante para a sociedade brasileira.

Então o conservadorismo com relação a questão racial no Brasil está em todos os setores. Agora, que o conservador é conservador nós sabemos, o duro é o progressista ser conservador nesse tema. E olha que estão na luta conosco em todos os outros temas. Nesses anos todos estivemos na luta contra a ditadura, pela redemocratização, pela Comissão da Verdade, mas o movimento negro parece que não existe. Se você pegar a história do Brasil parece que não fomos aliados importantes nessas lutas. Isso demonstra como essa invisibilidade é um grande obstáculo.

 

Como o racismo geralmente se manifesta entre colegas de trabalho? Como trabalhar a autoestima e a denúncia do crime nestes casos?

O racismo nas instituições, principalmente as públicas, nunca aparece de uma forma aberta. Ele aparece em uma remoção, aí se diz que o funcionário “criou um caso”, e outras formas mais dissimuladas. Dou o exemplo do Arquivo Nacional, onde sou funcionário. Se você pegar os cargos de confiança de lá, os comissionados, você não encontra um negro. E há lei sancionada no governo Dilma que uma parcela dos cargos comissionados deve ser para negros. Essa lei não é cumprida. E se alguém se levanta para pedir o cumprimento dela, tem confusão.

Eu acho que os sindicatos têm que ter um papel importante sobre isso. Mas mesmos os sindicatos criando as secretarias de igualdade racial, se você perguntar se as pautas destas secretarias são efetivas para as direções sindicais negociarem com os patrões, a resposta é “não”. Elas desaparecem, não existem. Então essa é uma dificuldade de combater o racismo nas instituições públicas, ou nas relações de trabalho, porque é como se fosse uma coisa pessoal isolada; ou seja, ela foi discriminada? É um problema dela com outra pessoa, e não da estrutura em que estas duas pessoas estão envolvidas. Não se trabalha a estrutura que é racista e reproduz essas relações que colocam as pessoas de uma forma subalterna. Então se ela reclama, ela é “uma chata”. Se apaga a questão dos direitos nesses casos.

Na questão do assédio, com relação a gênero há uma atenção maior do mundo sindical; mas na questão racial, por mais que haja um certo reconhecimento dessas estruturas injustas, ainda não virou pauta.

 

Como reforçar as diversas liberdades individuais (raça, sexualidade, religião) no trabalho e na sociedade?

Esse é um grande desafio. Costumo dizer mesmo que é o desafio da chamada democracia liberal brasileira, não estou nem falando em uma democracia mais ampla, mas a que existe. Uma questão importante é que essas lutas têm que estar aliadas. Nenhuma delas vai ser vitoriosa de forma isolada. Esta é uma outra dificuldade que se tem, você coloca uma pauta e aquela pauta acontece em um setor, mas não como uma aliança.

Tem que se entender que essas lutas são contra-hegemônicas, e para serem vitoriosas têm que entrar no calendário político de todos os segmentos, com atuações conjuntas. A unidade na luta que se fala muito e não se consegue construir. Por exemplo, os gays recentemente fizeram uma caminhada grande, maravilhosa, mas que efeito tem isso para alterar a correlação de forças políticas na sociedade?

As religiões de matriz africana conseguiram uma vitória importante, e o movimento negro foi um grande aliado, que foi pontuar a questão da intolerância religiosa. E observa que quando acontece o combate à intolerância religiosa, todos os outros combates à intolerâncias passam a acontecer. Neste caso foi a partir do movimento negro, que levantou uma bola e todos entraram. Então tem que haver ações mais conjuntas.

 

Essas ações conjuntas de diversos atores sociais devem influenciar mais o mundo profissional e do trabalho?

A luta social e política no Brasil tem um conceito de ser uma luta de classes voltada pelo determinismo econômico. Isso não resolve tudo porque o trabalhador não só tem relações do ponto de vista econômico no mundo. Ele tem uma vizinhança, uma comunidade, uma religião, ou não, se envolve em festas populares e etc. Então se não levar em conta essas experiências não se consegue fazer uma luta geral, mais abrangente para mudanças sólidas. Precisamos sair deste determinismo econômico e compreender as outras esferas em que a pessoa está inserida. Aí entram todas as questões, como gênero por exemplo, não adianta um cara ser brilhante no mundo do trabalho e ser um machista.

Na questão religiosa, observa -se agora um problema nos sindicatos. Começa-se a ter dentro dos sindicatos grupos evangélicos que estão colocando pauta de negociação em que se pede hora de reza, de culto, no seu local de trabalho. Como estão crescendo na sociedade, começam a fazer chapas eleitorais próprias nos sindicatos e passam a interferir na pauta de negociação geral da classe, com pautas extremamente conservadoras que interessam a eles. Quem diria que isso ia acontecer no mundo do trabalho?

Na década de 80 o movimento negro e os religiosos de matriz africana já falavam sobre isso, avisavam que isso ia acontecer, ia virar um fascismo na sociedade. Comissões de combate à intolerância religiosa também estão há 10 anos falando sobre isso, e nunca virou ponto de atuação. Observa que os sindicatos não apoiam a Caminhada Pela Liberdade Religiosa, são muito poucos que apoiam, os mais importantes dão um ou dois ônibus para irem à caminhada, mas não é pauta nem ponto de mobilização. E agora estão sofrendo com esse problema.

Não somos contra os evangélicos lutarem pelos seus direitos, a discussão não é essa. Está em discussão é eles aproveitarem seu poder de presença e participação em um espaço de trabalho para impor uma pauta extremamente conservadora e antidemocrática. Isto mostra que cada vez mais esses grupos que têm as suas especificidades precisam construir uma pauta comum.

 

Por que o senhor é pré-candidato ao Senado?

No ano passado começou a se discutir entre setores do movimento negro e religiosos de matriz africana que nós tínhamos que ter uma representação no Congresso. Uma frente de luta contra a intolerância religiosa e o racismo, e pelos direitos humanos.

Então nós fomos procurar todos os partidos com a mesma proposta. Porque os partidos agora falam em torno de uma unidade de esquerda, mas só partidária. Nós falamos mais do que isso, falamos de uma pauta comum que interessa a esses setores, não só do ponto de vista partidário. O PT sabia, eu conversei com alguns dirigentes. Conversei com o PC do B sobre essa pauta, conversei com o PSOL, ele não quis muito continuar a conversa, e conversei também com o PDT, o PSB e o PPS por último.

Nessas conversas com o PPS começamos a perceber que eles tinham um interesse nos seus quadros partidários, não na causa em si. Todos os outros partidos queriam que eu fosse candidato a deputado federal, e a avaliação geral era que eu me elegeria com muita facilidade. Claro que eu compreendo que é importante a disputa federal porque está em jogo agora a cláusula de barreira, o tempo de TV e o fundo partidário. Mas não estamos apresentando uma proposta para sermos simplesmente eleitos, estamos apresentando uma proposta política.

Essa proposta que interessa justamente neste momento de tanta intolerância, de desrespeito, de genocídio da população negra, de ataque aos direitos de liberdade religiosa e sexual. Queremos construir uma agenda para essas representações. E o único partido que ofereceu a legenda para acolher essa proposta foi o PPS, embora eu continue conversando com o PSB e o PC do B.

 

Existem pontos inegociáveis nestas conversas?

Se você observar, as direções partidárias falam de uma aliança e têm uma relação com o movimento, mas o movimento de uma forma muito subalterna. Uma coisa é você colocar o movimento dentro do partido e eleger os quadros do partido, outra coisa é você compreender que aquela liderança é importante para esse momento. Então eu sou candidato por essa razão.

E avalio que uma candidatura dessas no Rio de Janeiro tem uma contribuição nacional a dar. Não tenho dúvida que o movimento negro nacional vai se mobilizar com a candidatura, que os religiosos de matriz africana também, temos dialogado com setores progressistas evangélicos e também com a intelectualidade.

É impossível você achar que uma pessoa negra com uma trajetória forjada no movimento negro e na luta pelos direitos humanos nestes últimos 40 anos não possa ser um representante de uma proposta igualitária como esta. Por que só os brancos podem representar a luta pelos direitos humanos e os negros entram de forma subalterna? Ainda mais depois da tragédia com a Marielle Franco. Esse crime ressaltou a intolerância, o racismo e a necessidade permanente da defesa dos direitos humanos. O movimento negro e os movimentos sociais têm uma contribuição a dar, e não pode ser nessa condição subalterna, como se nunca pudessem representar um projeto.

Então o que nós estamos apresentando é mais do que uma candidatura, é um projeto de luta pela liberdade, respeito pela diversidade, contra o racismo, pela liberdade de expressão e pelas pluralidades. É a oposição ao projeto fascista, antidemocrático, ditatorial e conservador do outro lado. Do lado de cá defendemos uma proposta democrática.

Poderia ser em uma outra instância política? Sim, mas em um cargo majoritário. Porque o senador tem um tempo próprio de televisão, então você pode fazer essas bandeiras nossas reverberarem muito bem. E fico muito feliz que o meu sindicato, que é o Sintrasef, tem várias lideranças que abraçam esse projeto. Sou um associado do Sintrasef e me coloco na disputa para fazermos essas lutas necessárias. E é inegável que todas essas questões estão no dia a dia do servidor e do serviço público.

 

Quais suas propostas caso eleito senador?

Tem propostas que já estão colocadas há muito tempo: plano nacional de combate à intolerância religiosa, o reforço da aplicação da lei 10.639, o reforço da bolsa de estudos para os negros que estão nas universidades, que hoje estão em estado de penúria, a questão da indústria criativa, onde o pessoal negro tem uma participação muito efetiva e falta apoio oficial, e a luta contra o racismo, que é óbvio que vai continuar. Se você observar, se fazer campanha para senador vestido dessa forma (trajes típicos africanos), sem terno e gravata, já é uma grande contribuição para a sociedade na questão da identidade.

É claro também que como o senador representa um estado entra a questão econômica. E aí entra a pauta dos servidores públicos, que eu estou ouvindo e espero que os companheiros do sindicato me municiem com propostas muito claras. Por exemplo, não vou ser favorável à redução do Estado, ao contrário, vou trabalhar pela qualificação dos funcionários públicos, com melhor ambiente de trabalho e melhores salários. O plano de cargos e salários é uma questão a ser tratada, o direito à aposentadoria sem defasagem e com incorporações. Há uma vasta agenda que quero trabalhar, e inegavelmente a prioridade será aquela de que sou originário.

 

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